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Arte Para o Seu Corpo
Na primeira retrospectiva abrangente de Hélio Oiticica nos Estados Unidos, o Museu Whitney tornou-se um lugar onde visitantes/participantes podem desfrutar do trabalho imersivo de um dos artistas mais reconhecidos do Brasil.
- By Gisela Gueiros
Relaxe
Ao chegar ao 5º andar do Whitney para ver “Hélio Oiticica: Para Organizar o Delírio”, você percebe imediatamente que esta não é uma exposição de museu comum. Ao entrar na sala da instalação “CC5 Hendrix-War” (de 1973), os espectadores – ou participantes, como ele preferia chamá-los – são convidados a deitar-se em redes enquanto ouvem Jimi Hendrix. Projetadas nas paredes estão diferentes imagens da capa de “War Heroes”, um álbum póstumo do icônico guitarrista. É fácil esquecer a vida fora da rede enquanto você balança de um lado para o outro e mergulha na guitarra distorcida de Jimi e nas letras psicodélicas. Hélio acreditava que o artista era um “propositor” de práticas – ele tentava criar situações para que o espectador pudesse vivenciar. Ele fez arte que ia além das paredes.

Paraíso
Ainda mais inesperado é Eden, uma instalação massivamente grande na qual uma enorme parte do 5º andar está completamente coberta de areia. Você é convidado a colocar seus sapatos em cubículos de escola primária e, em seguida, pode passear pelos caminhos de areia. Ao longo do caminho, você encontra uma incrível variedade de experiências, incluindo tendas coloridas (nas cores de Mondrian: vermelho, azul, amarelo, preto e branco) onde você pode entrar e ouvir música, uma piscina de cubos de espuma para rolar, uma piscina rasa de água para molhar os pés, uma "piscina" semelhante de feno para uma sensação tátil completamente diferente para os seus pés, além de seixos e uma pilha de livros. Há uma parada especial para experimentar as roupas artísticas que Hélio criou, conhecidas como Parangolés.

Parangolé
Feitos de tecido, saco de batata ou plástico, os Parangolés devem ser carregados ou usados como capas pelo participante, que pode então, na visão ideal de Hélio, dançar samba. Mais do que usados, devem ser “incorporados” – espectador e obra de arte acontecendo ao mesmo tempo. A primeira vez que ele apresentou este trabalho no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1965, causou controvérsia. Os dançarinos de samba que Oiticica trouxe das favelas de Mangueira (favelas que ele frequentava no Rio) foram banidos de entrar no museu. Como plano B, o grupo fez seu happening ao ar livre e se tornou um dos momentos mais lendários da arte brasileira.
Pintando o espaço
Além das instalações interativas, também podemos ver obras tradicionais bidimensionais do início da sua carreira, incluindo algumas belas pinturas geométricas em cores quentes – inspiradas por pintores europeus construtivistas no estilo de Mondrian e Malevich. Ao traçar a sua evolução completa como artista, podemos literalmente ver o momento em que ele transforma as obras penduradas nas paredes em 3 dimensões. As mesmas belas formas geométricas coloridas ganham vida como esculturas penduradas no teto.

NYC
Hélio Oiticica viveu em Nova Iorque de 1970 a 1978 e produziu trabalho suficiente durante esse período para justificar esta exposição no Whitney, um museu que se concentra na arte americana. Ele morreu pouco depois de retornar ao Brasil, em 1980, aos 42 anos. Apesar da vida curta, Oiticica (pronunciado oy-tee-see-kah) foi revolucionário. Uma das suas instalações mais celebradas é Tropicália (também recriada na exposição Whitney), um jardim cheio de plantas em vasos, pássaros em gaiolas, areia, placas com poemas e uma sala precária onde uma velha televisão faz barulhos estranhos. É a partir desta obra, concluída em 1967, que Caetano Veloso e Gilberto Gil tiraram o nome para o seu icónico movimento musical de contracultura Tropicalismo.
Legado
Ele foi também um dos membros-chave na fundação do Movimento Neo-Concreto em 1959 – que sugeria que a arte deveria priorizar a participação, o corpo e a integração da arte no cotidiano. Oiticica é uma figura seminal na arte e cultura brasileiras e um personagem fascinante. Seu avô era filólogo e publicou um jornal anarquista. Seu pai era fotógrafo experimental e um cientista focado em borboletas. Ele lia filosofia moderna e amava especialmente Nietzsche. Foi Nietzsche quem acreditou que a invenção era a condição do artista trágico. Hélio Oiticica disse sobre suas obras: “Não sei o que são. Se é uma invenção, não posso saber o que é. Caso contrário, não seria uma invenção”.
Aproveite Hélio Oiticica: Para Organizar o Delírio no Museu Whitney de Arte Americana em Nova Iorque, de 14 de julho a 1 de outubro de 2017.